sexta-feira, 20 de junho de 2014

MEMÓRIAS LITERÁRIAS

             RELEMBRAR POETICAMENTE FATOS MARCANTES DE UM PASSADO DISTANTE

               Memória de livros

     Não sei bem dizer como aprendi a ler. A circulação entre os livros era livre (tinha que ser, pensando bem, porque eles estavam pela casa toda, inclusive na cozinha e no banheiro), de maneira que eu convivia com eles todas as horas do dia, a ponto de passar tempos enormes com um deles aberto no colo, fingindo que estava lendo e, na verdade, se não me trai a vã memória, de certa forma lendo, porque quando havia figuras, eu inventava as histórias que elas ilustravam e, ao olhar para as letras, tinha a sensação de que entendia nelas o que inventara. Segundo a crônica familiar, meu pai interpretava aquilo como uma grande sede de saber cruelmente insatisfeita e queria que eu aprendesse a ler já aos quatro anos, sendo demovido a muito custo, por uma pedagoga amiga nossa. Mas, depois que completei seis anos, ele não aguentou, fez um discurso dizendo que eu já conhecia todas as letras e agora era só questão de juntá-las e, além de tudo, ele não suportava mais ter um filho analfabeto. Em seguida, mandou que eu vestisse uma roupa de sair, foi comigo a uma livraria, comprou uma cartilha, uma tabuada e um caderno e me levou à casa de D. Gilete.

                     João Ubaldo Ribeiro. Um brasileiro em Berlim.
                                  Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. pp. 106-107.

     Umas principais características de um texto do Gênero Memórias literárias, segundo As Olimpíadas da Língua Portuguesa, "é a recordação de um passado distante, a infância geralmente, por um adulto, com uma linguagem, rebuscada e subjetiva, literária, ou por alguém que conhece essas histórias de um adulto amigo seu." Dizendo isso de forma bem simplificada possível.  Deu pra entender? Posta uma comentário aí com sua dúvida ou sugestão! :D :) <3

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