quarta-feira, 28 de maio de 2014

TEXTO PARA O TRABALHO

        PARA NOS ENCHER DE POESIA

        CANTADOR (DE SENTIMENTOS ESCONDIDOS)

     Esta pequena história foi contada por meus bisavós, que contaram aos meus avós que, por sua vez, recontaram aos meus pais, que me contaram de novo...Agora a conto a você.
     Era um tempo em que Alvorada do Norte era uma cidade pequena e próspera. Vivia seus dias de trabalho e mansidão alternados, como se alternam os dias e as noites, o sol e a lua, a chuva e o vento.
     O que aconteceu é que naquele belo dia a cidadezinha amanheceu de um jeito um tanto diferente. Uns minutinhos antes das dezenas de galos soltarem seus cocoricós costumeiros, as pessoas da minha cidade, ainda abraçadas a seus travesseiros ou mesmo de pé, no preparo da labuta do dia, ouviram algo diferente adentrando por portas e janelas ainda fechadas: "Acorda, Maria Bonita / Levanta vai fazer o café / que o dia já vem raiando / e a polícia já está de pé..."
     Mais ou menos no ritmo de um leve susto e do escuro se encontrar com o claro daquela manhã, os alvoradenses foram se dando conta do que acontecia: "Meu coração / não sei por quê / bate feliz / quando te vê / E os meus olhos ficam sorrindo / E pelas ruas vão te seguindo / Mas mesmo assim / foges de mim..."
     Vou contar logo, porque não é fácil de explicar. Pelas ruas poucas da cidade passava naquele dia, como aparição, miragem, encomenda, um presente dos deuses. Era um jovem cantador.
     O que mais sei do que me foi dito é que ele apenas falava bem falado, cantava pelo ar palavras bem bonitas que deixavam todo mundo encantado, curioso, incomodado. Umas pessoas riam, outras se embeveciam e ainda outras experimentavam emoções pouco sentidas: Logo que alguém abria a janela, soltava: "Menina, minha menina / faz favor de entrar na roda / cante um verso bem bonito / diga adeus e vá-se embora..."
     Vez por outra ele surpreendia seu cantar misturando-o com um achado pelo caminho. Rodopiando e declamando, cheirava solenemente uma flor e a entregava ao seu ouvinte - especialmente se fosse uma bela garota - como um adereço.
     Eu só sei que ele andou e voltou várias vezes pelas ruelas principais entoando com cerimônias de gesto e voz algumas preciosas palavras que tocaram de perto o sentimento das crianças, dos jovens e dos adultos. E depois, sem passe de mágica, nem mais, nem menos, sem dizer adeus a ninguém, ele foi embora: "Adeus amor eu vou partir / ouço ao longe um clarim..."
     Desapareceu pelo ziguezague das estradas, com seu maracatu de corpo. Acho que ele foi encantar outros corações em outros lugares, penso eu...
      O que sei, com certeza, é que até hoje, quando escuto um barulho diferente na minha rua, que já não é a mesma de outrora, seja de vento leve na folhagem, passarinho querendo fazer ninho ou até mesmo de alegria inventada, levanto bem de mansinho e espreito na minha janela para ver o cantador de palavras bonitas passar.


                               Antônio Gil Neto, verão, 2007.

     Pense num texto danado de bom meu cumpadi!! E se num for eu cegue! :D :) <3




    

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